Demanda por papel reciclado resiste apesar da retração na economia

A economia brasileira dá sinais de menor dinamismo, mas a cadeia de embalagens de papel segue mostrando resiliência. Na percepção da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (ANAP), a demanda permanece firme, os estoques estão baixos e o material encontra saída.

Embora o mercado possa estar avançando abaixo de algumas projeções, não há sinais de retração ou estagnação nas expedições. Os preços permanecem relativamente estáveis, com pequenos reajustes para cima, enquanto as fábricas se tornam mais seletivas e exigem aparas de melhor qualidade.

Os números de papelão ondulado ajudam a dimensionar o movimento. Em julho de 2026, a expedição de caixas, acessórios e chapas chegou a 379.925 toneladas, o maior volume para o mês desde o início da série do Índice Brasileiro de Papelão Ondulado, em 2005. Foi o quarto recorde mensal do ano, depois de janeiro, abril e junho. A alta de julho sobre igual mês de 2025 foi de apenas 0,3%, o que indica estabilidade na comparação anual, mas em um nível historicamente elevado de atividade.

Não se trata de expansão acelerada em toda a economia, mas de um mercado de embalagens que movimenta volumes relevantes mesmo em conjuntura mais fraca. O e-commerce sustenta parte desse movimento: cada venda online demanda proteção e transporte, frequentemente com caixas de papelão ondulado. Esse canal mantém a procura, mas também muda o lugar em que o material pós-consumo aparece.

Antes, uma parcela maior das aparas estava concentrada em estabelecimentos comerciais, onde a coleta de grandes volumes é eficiente.

Com o comércio eletrônico, as caixas chegam a milhões de residências. A demanda por reciclados e aparas aumenta, mas cresce também a dificuldade de coletar um material cada vez mais pulverizado nos domicílios. Recuperar essas embalagens exige rotas, triagem e consolidação de pequenos volumes. A embalagem é reciclável, mas isso não garante que volte para a indústria.

Esse é o principal paradoxo do momento. De um lado, fábricas demandam matéria-prima reciclada e ampliam capacidade. A Smurfit Westrock informou investimentos de R$ 1 bilhão no Brasil em dois anos. A BO Paper anunciou R$ 93,2 milhões para ampliar a unidade de Jaguariaíva, no Paraná, e combinar fibras virgens e recicladas. Projetos da Irani, do Grupo Penha e de outras empresas reforçam a procura por fibras recuperadas.

De outro lado, localizar, coletar e preparar esse material custa mais. O Brasil é continental e convive com cobertura desigual. A pesquisa MUNIC 2023, do IBGE, identificou algum serviço de coleta seletiva em 60,5% dos municípios com manejo de resíduos sólidos. Isso não significa atendimento em todos os bairros ou capacidade suficiente de triagem. A mesma pesquisa mostrou que 31,9% dos municípios ainda utilizavam lixões.

Nesse ambiente, o aparista compra, reúne, separa, classifica, prensa e entrega as aparas conforme as especificações das fábricas. Quando a indústria eleva a exigência de qualidade, toda a cadeia precisa responder. Umidade, contaminação e mistura de materiais reduzem o aproveitamento. Melhorar o padrão exige equipamentos, treinamento, armazenagem, transporte e relações estruturadas com cooperativas, catadores e geradores.

A demanda mostra que há mercado para o papel recuperado. O próximo passo é garantir oferta com qualidade e regularidade. Isso exige coleta seletiva abrangente, logística reversa efetiva, remuneração adequada, segurança tributária e capital de giro.

O setor não enfrenta falta de utilidade para as aparas. Enfrenta o desafio de acessar o material, preservar sua qualidade e transportá-lo de forma economicamente viável. Resolver essa equação permitirá transformar os recordes de expedição em mais reciclagem, renda, empregos verdes e segurança de abastecimento para a indústria brasileira de embalagens.

Investimentos de fábricas e aumento da demanda elevam preços das aparas de papel

Os novos investimentos em fábricas de embalagens, em Minas Gerais, Paraná e São Paulo, e o período de produção maior para atender à demanda no segundo semestre aumentaram a procura por aparas de papel marrom e elevaram os preços da matéria-prima reciclada.

Há vários projetos em andamento de fábricas novas ou de ampliação. Entre os principais investidores estão a Irani Papel e Embalagem, com a ampliação de sua unidade em Santa Luzia, em Minas Gerais, e o Grupo Penha, em São Paulo.

Em fato relevante, o Grupo Irani, que reportou um lucro líquido de R$ 30,9 milhões no segundo trimestre de 2026 (72% menor em relação ao mesmo período do ano passado), aprovou o projeto Gaia XII, orçado em R$ 514 milhões, para reformar a máquina de papel 07 e ampliar em 60% a capacidade da unidade de Santa Luzia.

Já o Grupo Penha finalizou, em abril, um novo ciclo de investimentos em sua unidade matriz, em Itapira (SP), com aportes superiores a R$ 200 milhões direcionados à ampliação da capacidade produtiva e à atualização tecnológica. Os investimentos tiveram início em julho de 2024 e se estenderam por aproximadamente dois anos, representando um avanço na estrutura industrial da empresa.

Além disso, houve a operacionalização da BO Paper no Paraná e a reativação da antiga planta fabril da Madepar, em Aparecida do Norte (SP), agora sob nova administração.

Desde maio e junho, as fábricas de papelão na região Sul intensificaram a compra de aparas marrons em seus próprios estados, para economizar com custos de frete. O aumento das compras ocorre em um período de maior demanda por embalagens com as festas de fim de ano.

Essa estratégia do Sul avançou também para São Paulo e Minas Gerais, levando a uma reação nos preços.

Em São Paulo, observou-se, no mês de julho, um aumento de aproximadamente 3 a 5 centavos por quilo das aparas marrons, enquanto, em Minas Gerais, o impacto foi mais significativo, com aumentos de 5 a 10 centavos por quilo.

REFORMA TRIBUTÁRIA

A implementação da reforma tributária e a perda dos incentivos fiscais estaduais, por outro lado, estão redefinindo a estratégia geográfica das indústrias. Com a adoção dos novos impostos (IBS e CBS), o imposto será cobrado conforme o local de consumo, não mais em relação ao local de produção.

Isso está forçando as indústrias a produzirem mais próximo dos grandes centros consumidores para reduzir custos logísticos, já que os antigos incentivos tributários terão data de validade definida.

A estratégia agora é clara: produzir perto do consumidor. Isso explica por que vemos reativações de plantas em São Paulo e ampliações em Minas Gerais, que são grandes centros consumidores.

O novo governo e o incentivo à reciclagem

Por executivos da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap)

O Governo do Brasil lançou, no final de junho, a campanha educativa “O Resíduo que Você Separa Vira Renda nas Mãos de Quem Recebe”, iniciativa que busca melhorar a separação de resíduos pela população e favorecer a triagem e a comercialização pelos mais de 1 milhão de catadores autônomos e cooperativas do setor que vivem da reciclagem no país.

O tema é extremamente relevante e deveria estar contemplado em todos os programas de governo, tanto dos candidatos à Presidência da República quanto dos que disputam os governos dos estados neste ano, em outubro.

Reciclagem não é apenas uma questão ambiental, mas também de geração de renda, inclusão social e desenvolvimento econômico. É positivo o governo promover uma campanha com esse foco, que estimula a reciclagem e fortalece o lado mais frágil da cadeia do setor.

Nesse ecossistema, o aparista é e sempre foi um elo essencial e estruturante da cadeia da reciclagem. Muito além de um simples consolidador de cargas, o aparista é o agente que viabiliza a economia circular na prática. De forma privada, ele estrutura a infraestrutura logística e operacional necessária para dar vazão aos materiais e financia a operação de toda a cadeia de fornecimento — sempre comprando à vista ou antecipadamente e vendendo a prazo. O aparista atua como um verdadeiro colchão financeiro e fiscal, sustentando uma rede que envolve e garante a subsistência de centenas de milhares de brasileiros.

O tema, com certeza, deveria pesar na escolha dos candidatos nas próximas eleições presidenciais e para os governos estaduais. Os candidatos devem focar em três eixos fundamentais: ampliar os investimentos em coleta seletiva e infraestrutura de triagem em todos os municípios (as cooperativas fazem uma triagem quase perfeita e geram empregos e renda); incentivar a indústria a utilizar mais matéria-prima reciclada por meio de leis e decretos; e promover campanhas permanentes de educação ambiental para aumentar a participação da população.

A reciclagem precisa deixar de ser tratada como um tema secundário e passar a integrar uma estratégia nacional de economia circular. Os candidatos devem ampliar os investimentos em coleta seletiva e infraestrutura de triagem em todos os municípios, incentivar a indústria a utilizar mais matéria-prima reciclada por meio de leis e decretos, além de ampliar as campanhas permanentes de educação ambiental.

O próximo governo, independentemente de quem for eleito, tem a oportunidade de transformar resíduos em riqueza, inovação e inclusão social. É essencial incentivar a reciclagem, principalmente em relação à tributação, que precisa ser padronizada. A reforma tributária precisa levar isso em consideração para não impactar negativamente toda a cadeia, a começar pela base, que são os catadores, passando pelos aparistas, até chegar à indústria recicladora.

O novo governo tem o dever de colocar a reciclagem, um dos setores mais importantes para a preservação ambiental e a economia circular, como prioridade em seu programa.

A sociedade moderna, em todo o mundo, trata a reciclagem e todos os segmentos ligados a ela como fundamentais para a defesa do planeta. Já está na hora de o Brasil, que sediou a última COP, mostrar o seu compromisso com a reciclagem.

Alerta no Setor de Reciclagem: Decisão do STF sobre PIS/COFINS Ameaça a Cadeia de Aparas

A sustentabilidade da reciclagem no Brasil sofreu um duro golpe jurídico recentemente. O Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu o julgamento sobre a constitucionalidade da incidência de PIS e COFINS na comercialização de materiais recicláveis, e o resultado traz preocupações profundas para a ANAP (Associação Nacional dos Aparistas de Papel) e todos os seus associados.

A decisão mantém a cobrança desses tributos na etapa de venda dos resíduos, o que, na prática, ignora a natureza circular do nosso negócio e impõe um ônus financeiro que pode desequilibrar toda a cadeia produtiva.

O Impacto Direto nos Custos

Como destacado em recente repercussão na mídia econômica, a manutenção dessa incidência tributária deve elevar imediatamente os custos operacionais. Para o aparista, o impacto é duplo:

  1. Redução de Margem: O valor dos impostos não pode ser simplesmente repassado no preço final sem perder competitividade para a matéria-prima virgem.

  2. Pressão na Coleta: Com custos mais altos, a capacidade de compra dos aparistas junto aos pequenos geradores e catadores é reduzida, o que pode desestimular a coleta na base da pirâmide.

O Posicionamento da ANAP

Para a ANAP, a decisão do STF é um retrocesso nas políticas de incentivo à economia circular. “Estamos tributando o que deveria ser incentivado. Ao onerar a apara, o Estado torna a reciclagem um processo mais caro e menos atrativo economicamente, o que vai de encontro às metas globais de sustentabilidade e à própria Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)”, afirma a diretoria da associação.

A preocupação é que essa pressão tributária gere um efeito dominó:

  • Indústria: Terá insumos mais caros.

  • Consumidor: Poderá sentir o aumento no preço de produtos que utilizam embalagens recicladas.

  • Meio Ambiente: Menos incentivo financeiro para a reciclagem significa mais resíduos destinados incorretamente a aterros sanitários.

O que esperar daqui para frente?

Diante deste cenário desafiador, a ANAP reforça seu compromisso de atuar junto aos órgãos governamentais e ao Congresso Nacional. A nossa luta agora se volta para:

  • Aceleração de Projetos de Lei: Buscar vias legislativas que possam mitigar os efeitos dessa decisão, como a criação de regimes especiais para o setor.

  • Diálogo Institucional: Mostrar ao governo o valor socioambiental do setor de aparas, que gera milhares de empregos e economiza recursos naturais.

  • Orientações Jurídicas: Continuar oferecendo suporte técnico e jurídico aos associados para que possam navegar neste novo cenário com o menor impacto possível.

Conclusão

A decisão do STF é um obstáculo, mas não o fim da nossa jornada. O setor de aparas é resiliente por natureza. No entanto, é fundamental que estejamos unidos e organizados para cobrar políticas que reconheçam que reciclagem não é apenas lixo, é insumo, é valor e é o futuro do planeta.

ANAP – Unidos para superar desafios e fortalecer o setor de reciclagem.

Vitória Histórica: Lei nº 15.394/2026 Traz Segurança Jurídica e Desoneração para o Setor de Aparas

É com grande entusiasmo que a ANAP compartilha uma conquista fundamental para todos os aparistas e para a cadeia da reciclagem no Brasil. No último dia 22 de abril de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.394, que altera a Lei do Bem (Lei nº 11.196/2005) e resolve impasses tributários que há décadas sobrecarregavam o nosso setor.

A nova legislação foca na incidência do PIS/Pasep e da COFINS sobre a comercialização de desperdícios, resíduos e aparas, trazendo fôlego financeiro e justiça fiscal para quem transforma descarte em matéria-prima.

O que muda na prática para o Aparista?

A Lei nº 15.394/2026 introduz duas mudanças principais que impactam diretamente a operação das empresas de aparas de papel:

    1. Isenção na Venda: A partir de agora, a venda de desperdícios, resíduos e aparas (especificamente as classificadas nas posições da TIPI como papel e papelão recicláveis) passa a ser isenta de PIS e COFINS. Isso elimina a bitributação e torna o material reciclado mais competitivo frente à matéria-prima virgem.

    2. Direito ao Crédito para a Indústria: A lei autoriza expressamente que as indústrias que adquirem essas aparas para utilizá-las como insumo em seus processos produtivos possam apurar créditos de PIS e COFINS sobre essas aquisições.

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Por que esta lei é um marco para a ANAP?

A ANAP sempre defendeu que o setor de reciclagem não poderia ser penalizado por uma estrutura tributária que ignorava a circularidade da economia. Antes desta lei, havia uma insegurança jurídica constante: muitas vezes, o crédito tributário era negado na ponta final, o que acabava “achatando” o preço pago ao aparista e desestimulando a coleta.

Com a nova lei, o cenário muda:

  • Valorização do Produto: Com a isenção na venda e o crédito na compra pela indústria, as aparas de papel ganham valor de mercado.

  • Segurança Jurídica: Acabam as interpretações dúbias da Receita Federal sobre o que é ou não “insumo” passível de crédito no setor de reciclagem.

  • Sustentabilidade Econômica: A desoneração permite que as empresas de aparas invistam em tecnologia, logística e na melhoria das condições de trabalho para seus colaboradores.

Próximos Passos: Adaptação e Gestão

A lei entrou em vigor na data de sua publicação. Por isso, recomendamos que todos os associados:

  • Revisem seus sistemas de faturamento: Para garantir que a isenção seja aplicada corretamente nas notas fiscais de venda.

  • Consultem seus departamentos contábeis: Para alinhar a classificação fiscal (TIPI) dos materiais comercializados com os novos dispositivos legais.

A sanção da Lei nº 15.394/2026 é o reconhecimento de que o trabalho do aparista é essencial para o futuro do Brasil. Continuaremos vigilantes e atuantes para que a regulamentação dessa lei ocorra de forma simples e eficiente para todos.

ANAP – Trabalhando por um mundo sustentável e por um setor forte.


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Link Diario Oficial: https://www.in.gov.br/web/dou/-/lei-n-15.394-de-22-de-abril-de-2026-700788821

Nota Oficial PIS / COFINS 2026

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Aparistas de papel encerram 2025 com dificuldades e avanços regulatórios

Por executivos da Associação Nacional dos Aparistas de
Papel (Anap)
ANAP Associação Nacional dos Aparistas de Papel dezembro 10, 2025

O ano de 2025 se encerra com dificuldades para o setor dos aparistas de papel no Brasil. Enquanto as grandes fabricantes de celulose e embalagens divulgam balanços com resultados excelentes, a cadeia de fornecimento das aparas – que responde por parcela significativa da matéria-prima reciclada – sofre com uma rentabilidade baixa.

Esse quadro deve reduzir aos ganhos das empresas de reciclagem de papel. O faturamento de R$ 4,2 bilhões alcançado pelo setor em 2024, um crescimento de 29,8% em relação a 2023, não deve se repetir neste ano, diante de uma crise estrutural e de preços que levou à queda da taxa de reciclagem para 59,7%, o menor índice dos últimos anos.

A principal distorção vivida em 2025 foi a gritante assimetria entre os resultados da indústria e a realidade dos seus fornecedores. A queda nos preços das aparas iniciou-se de forma atípica entre julho e agosto e se mantém nesse final de ano, período no qual historicamente ocorre maior demanda por embalagens em função do período de festas.

O resultado foi um cenário em que um lado da balança prospera, enquanto a base da cadeia de fornecimento é novamente espremida. Há uma  crescente concentração e controle de mercado da indústria de papel, com grandes players dominando a compra de aparas e definindo preços, deixando os fornecedores pulverizados com pouco poder de barganha.

Essa pressão se somou a outros desafios, como o aumento no preço do diesel e de outras matérias-primas essenciais na produção, o que impactou diretamente os custos operacionais e reduziu ainda mais as margens.

O problema transcende os números, evidenciando uma questão social premente. A volatilidade dos preços impacta diretamente a renda de milhares de famílias que dependem da coleta, os catadores de materiais, o elo mais fraco da cadeia.

Quando a atividade deixa de ser financeiramente sustentável, catadores e microempreendedores migram para outras oportunidades. O impacto social é massivo, pois a coleta injeta cerca de R$ 350 milhões por ano diretamente na base da pirâmide. A instabilidade ameaça esse fluxo de renda, fragilizando os trabalhadores que dependem da coleta para sobreviver.

Soma-se a isso uma mudança estrutural trazida pelo e-commerce. A logística de coleta, antes concentrada em grandes pontos comerciais, agora se pulverizou para as residências. Essa nova realidade, análoga à logística de “primeira milha” (First Mile), é mais cara e complexa, mas essa complexidade não foi remunerada de volta pela cadeia.

Em meio aos grandes desafios, 2025 foi também um ano de vitórias históricas no campo regulatório, fruto de uma intensa articulação que lança as bases para um futuro mais estável.

Houve intensa mobilização a favor da PEC da Reciclagem, que já obteve 185 assinaturas favoráveis dos deputados e continuará a movimentar o setor em 2026. A PEC garante a isenção de tributos (CBS e IBS) para materiais recicláveis, o que poderá, se aprovada, corrigir uma distorção que ameaça a competitividade do setor.

Além disso, o Projeto de Lei 1.800/21, que isenta recicladores de PIS/Cofins, avançou para o Senado, e o Decreto nº 12.451, de maio, trouxe mais segurança jurídica ao mercado. A medida regulamenta as exceções à proibição de importação de resíduos sólidos no Brasil e traz um novo horizonte de segurança e proteção para os aparistas de todo o país.

Outra decisão importante favoreceu o setor de plástico: a publicação do  Decreto nº 12.688/2025, de outubro último, que definiu percentuais mínimos de material reciclado a ser utilizado pelas indústrias, uma garantia de demanda até então inexistente e antigo pleito do segmento.

O decreto do plástico abre caminho para medida similar aos recicladores de papel e papelão, promessa do governo Lula ainda não cumprida. O decreto será fundamental para criar uma demanda garantida por material reciclado e para remunerar a cadeia de coleta de forma justa, protegendo-a da volatilidade.

O balanço de 2025 deixa claro que o setor vive um momento crucial. O Brasil, que já teve taxas de reciclagem de papelão superiores às da Europa, não pode se contentar com o retrocesso.

A solução final para essa crise estrutural passa, impreterivelmente, pela criação de um marco regulatório para o papel e papelão, pleito que a Anap defende veementemente. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) existe há 15 anos, mas a responsabilidade estendida do produtor nunca foi efetivamente cobrada para o nosso setor.

A Anap conclama o governo e a indústria a se unirem aos aparistas na construção de um futuro mais estável para a reciclagem. A criação de um marco regulatório não é apenas uma questão de sustentabilidade, mas de justiça social e de inteligência econômica.

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ANAP Associação Nacional dos Aparistas de Papel

A coluna da ANAP é assinada por Marcelo Bellacosa, presidente da ANAP e CEO da SCRAP

Ambiental; João Paulo Sanfins, vice-presidente da ANAP e sócio-diretor do Grupo CRB (Comércio de Resíduos Bandeirantes); Gabriel Vicchiatti, conselheiro da ANAP e CEO da Vicchiatti Ambiental; e Fábio Suetugui, conselheiro da ANAP e gerente da Repapel.

Após a PEC da Reciclagem, é urgente um decreto para o papel e papelão

Em setembro de 2025, o setor de reciclagem brasileiro conquistou uma vitória importante: a Proposta de Emenda à Constituição nº 34/2025, conhecida como PEC da Reciclagem, alcançou as 185 assinaturas necessárias na Câmara dos Deputados. De autoria do deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania/SP), a PEC surge como resposta às distorções criadas pela Reforma Tributária, que ameaçam inviabilizar a cadeia de reciclagem ao eliminar as vantagens competitivas dos materiais recicláveis frente aos materiais virgens.

A proposta busca corrigir um problema grave: com a substituição do IPI, do PIS/Cofins e do ICMS pelo IBS e pela CBS, os materiais recicláveis passarão a ser integralmente tributados, com aumento de carga de pelo menos 26,5%. A PEC 34/2025 propõe assegurar a isenção da CBS e do IBS para empresas que comercializem materiais recicláveis e o creditamento integral desses tributos para indústrias que utilizarem reciclados nos processos produtivos.

Paralelamente, em 21 de outubro de 2025, o governo federal deu um passo histórico ao publicar o Decreto nº 12.688, que institui o Sistema de Logística Reversa de Embalagens de Plástico. A medida foi amplamente celebrada por trazer segurança jurídica, previsibilidade e um caminho claro para o desenvolvimento da economia circular do plástico no Brasil. O decreto estabelece metas progressivas para a reciclagem e o uso de conteúdo reciclado pós-consumo (PCR), define responsabilidades claras para todos os elos da cadeia produtiva e prioriza expressamente a inclusão de cooperativas e catadores. Essa estrutura regulatória cria uma demanda garantida por material reciclado, estabilizando o mercado, reduzindo a vulnerabilidade às oscilações de preços das commodities e incentivando investimentos em toda a cadeia.

Contudo, a Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap) alerta que, embora a PEC seja essencial para garantir a competitividade tributária, ela não é suficiente para resolver os problemas estruturais que afligem especificamente o setor de papel e papelão. É urgente a criação de um decreto específico para o papel e papelão, nos mesmos moldes do bem-sucedido decreto do plástico, para criar a estrutura de logística reversa e as metas necessárias para estabilizar e fortalecer o setor.

CRESCIMENTO SEM RENTABILIDADE

Enquanto a PEC da Reciclagem busca garantir a competitividade tributária de todos os materiais recicláveis, o setor de papel e papelão enfrenta uma crise específica e alarmante. Em 2024, o setor registrou uma taxa de reciclagem de apenas 59,7%, o pior índice desde 2018, conforme demonstram os números do mais recente relatório setorial realizado pela Anap, em parceria com a consultoria MaxiQuim, e apresentado durante a Eco Expo 2025. Este número contrasta de forma preocupante com a taxa de 65,2% registrada em 2022 e com os 85% alcançados especificamente para embalagens de papel no mesmo ano.

O mais alarmante é que essa queda expressiva ocorre apesar de um aumento de 30% no faturamento do setor, que alcançou R$ 4,2 bilhões em 2024, movimentando 4,65 milhões de toneladas de material. Esse crescimento no faturamento, no entanto, é um número enganoso. A Anap alerta que o aumento de preço não foi capaz de reestruturar uma cadeia que foi desfeita pelos preços extremamente baixos praticados em 2023. Não é sustentável ter uma alteração na infraestrutura nacional de coleta em razão de oscilações de preços de commodities, que naturalmente vão oscilar ao longo do tempo. Essa volatilidade cria um ciclo vicioso de instabilidade que prejudica todos os elos da cadeia.

A crise se manifesta de forma concreta na desestruturação da cadeia de coleta. A volatilidade dos preços, especialmente após o colapso de 2023, afastou pequenos coletores, sucateiros e cooperativas, que encontraram em outros materiais, como o plástico, uma fonte de renda mais estável. Com isso, os aparistas foram forçados a assumir diretamente a coleta em estabelecimentos comerciais, demandando maior estrutura logística. Os dados revelam essa mudança estrutural: a participação de estabelecimentos comerciais no fornecimento aumentou 10%, enquanto a de sucateiros e ferros-velhos caiu 7%, e a de cooperativas recuou 3%.

Para movimentar um aumento de apenas 3% no volume, foi necessário um acréscimo de 3,5% na mão de obra do setor de aparistas, além de investimentos substanciais em renovação de frota e aquisição de equipamentos. O faturamento aumentou, mas esse dinheiro foi imediatamente revertido em investimentos para reestruturar uma cadeia que se tornou deficitária. Outro indicador preocupante é a inversão na balança comercial: em 2024, as importações de aparas de papel cresceram 47%, enquanto as exportações registraram uma queda de 7,5%.

DECRETO PARA O PAPEL E PAPELÃO É URGENTE

Diante da crise estrutural no setor de papel e papelão e do comprovado sucesso do modelo regulatório adotado para o plástico, a Anap reforça com veemência a urgência da criação de um decreto específico para o papel e papelão. É fundamental compreender que a PEC da Reciclagem e o decreto do papel são medidas complementares e não excludentes. A PEC garante a competitividade tributária de todos os materiais recicláveis, enquanto o decreto específico para o papel criaria a estrutura de logística reversa, as metas de uso de conteúdo reciclado e as responsabilidades compartilhadas necessárias para estabilizar e fortalecer a cadeia produtiva.

A Anap defende que um decreto para o papel e papelão deve obrigar o uso de conteúdo reciclado nas embalagens e, ao mesmo tempo, obrigar as empresas a realizarem projetos de logística reversa que remunerem melhor a cadeia de coleta, tornando-a, em parte, imune às alterações de preço de commodities. Essa estrutura é fundamental para criar um mercado estável, previsível e resiliente.

Garantir a demanda por material reciclado é o primeiro pilar dessa proposta. Estabelecer metas obrigatórias de uso de papel reciclado em novas embalagens criaria um mercado com demanda garantida, assegurando que a indústria papeleira tenha compromissos claros com a economia circular e fortalecendo a demanda por aparas de papel de qualidade.

Estruturar e profissionalizar a cadeia de coleta é o segundo pilar essencial. Um decreto nos moldes do plástico incentivaria e, em certa medida, obrigaria a criação de projetos de logística reversa que remunerem adequadamente todos os elos da cadeia de coleta, protegendo-a das oscilações bruscas de preços. A Anap ressalta que o valor disponibilizado para o setor surtirá maior efeito se aplicado aos recicladores, que, ao possuírem maior demanda por material, vão pressionar positivamente o preço das aparas, fazendo com que o catador, que está na ponta, tenha maior impacto em sua renda.

Valorizar o trabalho dos catadores é o terceiro pilar. A oscilação de preços das commodities expõe a fragilidade estrutural do ciclo de reciclagem no país, com impacto direto nas pessoas que vivem da coleta de materiais recicláveis, expondo sua vulnerabilidade financeira. São elas que absorvem de forma mais acentuada os impactos negativos dessas flutuações, o que compromete diretamente a previsibilidade de sua renda e sua estabilidade econômica.

Fortalecer a economia circular e a sustentabilidade é o quarto pilar. Consolidar a reciclagem de papel como um pilar estratégico da sustentabilidade no Brasil significa reduzir o descarte inadequado, a poluição ambiental e a pressão sobre os recursos naturais. O Brasil já é reconhecido internacionalmente como um dos principais recicladores de papel do mundo, com uma taxa de reciclagem de 58% (média nacional), contra 47% na América Latina, segundo a pesquisa Trend Tracker 2025, da Two Sides.

AÇÕES COORDENADAS

A queda na taxa de reciclagem de papel não é apenas um número estatístico, mas um sintoma grave de uma doença estrutural que ameaça um dos setores mais importantes da economia circular brasileira. A PEC 34/2025 da Reciclagem representa um avanço fundamental e deve ser apoiada e aprovada com urgência nas instâncias superiores em Brasília. Contudo, essas medidas, embora essenciais, são insuficientes para resolver o problema de fundo do setor de papel e papelão, que é a falta de uma política estruturante de longo prazo que garanta demanda, estabilize a cadeia de coleta e profissionalize o setor.

O Brasil já demonstrou, com o Decreto nº 12.688/2025 do plástico, que é capaz de criar políticas públicas eficazes e estruturantes para a gestão de resíduos e o fortalecimento da economia circular. Agora, é imperativo que o mesmo compromisso seja aplicado ao setor de papel e papelão. A publicação de um decreto para o papel não é apenas uma demanda legítima da indústria, mas uma necessidade urgente para o meio ambiente, para a geração de empregos verdes, para a inclusão socioprodutiva de catadores e para a consolidação de uma verdadeira economia circular no país.

A Anap convoca o governo federal, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Congresso Nacional e toda a sociedade a atuarem de forma coordenada em duas frentes complementares: aprovar a PEC da Reciclagem para garantir a competitividade tributária de todos os materiais recicláveis e publicar o decreto do papel para criar a estrutura de logística reversa e as metas necessárias para estabilizar e fortalecer o setor. O momento de agir é agora. O futuro da reciclagem de papel no Brasil depende de ações concretas e coordenadas hoje.

Minuta Anap 2º Trimestre de 2025

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Queda de preços dos papelões afeta operações dos aparistas

Por executivos da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap)

Os atuais preços do papelão, em queda há dois meses, estão dificultando as operações dos aparistas de papel, responsáveis por comprar e gerenciar mensalmente milhares de toneladas de material recolhido das ruas pelos catadores e entregue também pelo comércio varejista, atacadista e indústria. Esse cenário está reduzindo o interesse dos catadores pela matéria-prima, já que recebem menos pelo quilo vendido aos recicladores e cooperativas.

As fábricas de embalagens, com os estoques cheios e vendas em baixa, reduziram os preços nas compras das aparas marrons, usadas na produção de caixas de papelão, que representam mais de 70% de todo o material reciclado pelos aparistas de papel, cerca de 3,8 milhões de um total de 4,5 milhões de toneladas anuais.

Os preços vêm caindo de forma repentina e agressiva. O aparista tem se deparado nos últimos dois meses com uma baixa de cerca de 20% nos valores negociados. Em Minas Gerais, a queda chega a 23%, enquanto em São Paulo, o principal mercado, fica perto de 20%.

Algumas grandes indústrias vêm até mesmo devolvendo aparas de papelão, conforme relatado por vários associados da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap), diante do volume já elevado em seus pátios. Uma das principais fábricas do setor no país tem estoques para 60 dias.

A redução nos preços vem ocorrendo também por outro motivo: a mudança da logística de operação. Tradicionalmente dependente de um fluxo previsível de materiais provenientes do comércio varejista e atacadista, o segmento encontra-se hoje diante de um cenário novo. A maior parte das embalagens, que antes se concentrava em pontos comerciais específicos do comércio, agora se dispersa por milhões de residências, criando desafios logísticos inéditos e oportunidades para novos modelos de negócio na economia circular.

O poder de negociação do aparista em relação às fábricas é extremamente baixo. Há o compromisso em contrato com os fornecedores, como os grandes supermercados, de retirada do material para reciclagem, sob pena de multa, mas o mesmo não acontece em relação às fábricas, que dominam o mercado como um oligopsônio (poucos compradores) e controlam os preços de acordo com seus interesses. Com isso, as indústrias têm o poder de baixar preços e até mesmo recusar ou devolver embarques já programados.

Essa situação repete o cenário vivido pelo setor no final de 2022 e começo de 2023, após a pandemia da Covid-19, quando os preços também apresentaram forte queda. Naquele momento, havia também o fator importação, que impactou a oferta e os preços.

O temor das empresas de aparas atualmente é que haja novamente uma desestruturação da cadeia do setor, cujo principal prejudicado é o catador de papel, o elo mais fraco do segmento, cerca de 1 milhão de trabalhadores que vivem da venda de material reciclado recolhido nas ruas.

Embora a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), implantada em 2010 pelo governo para estimular a coleta e destino correto de insumos recicláveis, esteja em vigor, após 15 anos houve pouco avanço no Brasil. Os recicladores de papel, assim como os de sucata ferrosa, usada na indústria de aço, continuam reféns das fábricas. Os recicladores sofrem ainda com uma política fiscal que não beneficia um setor fundamental na defesa do meio ambiente.

Além disso, decretos prometidos pelo governo para obrigar as fábricas a comprarem um percentual definido de material reciclado, tanto de plástico como de papel, foram adiados várias vezes desde o final do ano passado.

FIRST MILE VERSUS LAST MILE

Com a mudança da logística do setor, o catador tornou-se a figura principal na oferta de papel, mas os baixos preços têm desestimulado a coleta nas ruas e levado esse profissional a priorizar a coleta de insumos mais rentáveis.

Neste novo cenário, emergiu com força o conceito de First Mile — a primeira milha da logística reversa. Se o Last Mile representa a entrega final do produto ao consumidor, o First Mile representa a coleta inicial dos resíduos recicláveis nas residências. E nesta etapa, os catadores de materiais recicláveis assumiram um papel protagonista.

Antes da pandemia, o setor de reciclagem de papel operava dentro de um modelo logístico bem estabelecido e previsível. As embalagens seguiam um fluxo linear e concentrado: produtos eram transportados da indústria para centros de distribuição, depois para atacadistas e, finalmente, para o varejo. Nesse processo, as embalagens secundárias e terciárias permaneciam concentradas em pontos específicos da cadeia.

Esse modelo criava pontos de concentração ideais para a coleta de materiais recicláveis. Os aparistas de papel desenvolveram suas operações em torno dessa lógica de concentração, estabelecendo rotas eficientes que incluíam supermercados, lojas de departamento e estabelecimentos atacadistas, onde grandes volumes de embalagens estavam disponíveis em locais de fácil acesso.

Nesse período, 30% dos insumos obtidos pelos aparistas provinham diretamente do comércio varejista e atacadista. Outros 30% eram originários de ferros-velhos e sucateiros, 25% da indústria (resíduos pós-industriais) e apenas 15% de cooperativas de catadores e coleta domiciliar.

A chegada da pandemia acelerou drasticamente tendências que já estavam em desenvolvimento no comércio brasileiro. O isolamento social forçou milhões de consumidores a migrar para plataformas digitais, transformando o e-commerce de uma opção conveniente em uma necessidade essencial.

A descentralização do fluxo de embalagens criou uma série de desafios operacionais para os aparistas e grande aumento de custos na operação. O modelo de negócio tradicional, baseado na coleta eficiente em pontos de alta concentração, tornou-se menos viável quando o material passou a estar disperso em milhões de residências.

Essa descentralização trouxe uma consequência direta: o aumento do volume de resíduos recicláveis gerado nas residências, especialmente embalagens secundárias e terciárias. Isso dificultou a coleta e triagem desse material, já que os aparistas não conseguem operar de forma eficiente em áreas residenciais, onde o volume por ponto de coleta é baixo e disperso.

Os catadores, que tradicionalmente operavam como um complemento ao sistema de reciclagem, tornaram-se peças fundamentais na nova cadeia de suprimentos. Eles são os únicos agentes capazes de realizar a coleta domiciliar de forma economicamente viável, devido à sua capilaridade, conhecimento local e modelo operacional adaptado para pequenos volumes. Essa mudança representa não apenas uma alteração operacional, mas uma valorização do papel social e econômico dos catadores na economia circular brasileira.