

A economia brasileira dá sinais de menor dinamismo, mas a cadeia de embalagens de papel segue mostrando resiliência. Na percepção da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (ANAP), a demanda permanece firme, os estoques estão baixos e o material encontra saída.
Embora o mercado possa estar avançando abaixo de algumas projeções, não há sinais de retração ou estagnação nas expedições. Os preços permanecem relativamente estáveis, com pequenos reajustes para cima, enquanto as fábricas se tornam mais seletivas e exigem aparas de melhor qualidade.
Os números de papelão ondulado ajudam a dimensionar o movimento. Em julho de 2026, a expedição de caixas, acessórios e chapas chegou a 379.925 toneladas, o maior volume para o mês desde o início da série do Índice Brasileiro de Papelão Ondulado, em 2005. Foi o quarto recorde mensal do ano, depois de janeiro, abril e junho. A alta de julho sobre igual mês de 2025 foi de apenas 0,3%, o que indica estabilidade na comparação anual, mas em um nível historicamente elevado de atividade.
Não se trata de expansão acelerada em toda a economia, mas de um mercado de embalagens que movimenta volumes relevantes mesmo em conjuntura mais fraca. O e-commerce sustenta parte desse movimento: cada venda online demanda proteção e transporte, frequentemente com caixas de papelão ondulado. Esse canal mantém a procura, mas também muda o lugar em que o material pós-consumo aparece.
Antes, uma parcela maior das aparas estava concentrada em estabelecimentos comerciais, onde a coleta de grandes volumes é eficiente.
Com o comércio eletrônico, as caixas chegam a milhões de residências. A demanda por reciclados e aparas aumenta, mas cresce também a dificuldade de coletar um material cada vez mais pulverizado nos domicílios. Recuperar essas embalagens exige rotas, triagem e consolidação de pequenos volumes. A embalagem é reciclável, mas isso não garante que volte para a indústria.
Esse é o principal paradoxo do momento. De um lado, fábricas demandam matéria-prima reciclada e ampliam capacidade. A Smurfit Westrock informou investimentos de R$ 1 bilhão no Brasil em dois anos. A BO Paper anunciou R$ 93,2 milhões para ampliar a unidade de Jaguariaíva, no Paraná, e combinar fibras virgens e recicladas. Projetos da Irani, do Grupo Penha e de outras empresas reforçam a procura por fibras recuperadas.
De outro lado, localizar, coletar e preparar esse material custa mais. O Brasil é continental e convive com cobertura desigual. A pesquisa MUNIC 2023, do IBGE, identificou algum serviço de coleta seletiva em 60,5% dos municípios com manejo de resíduos sólidos. Isso não significa atendimento em todos os bairros ou capacidade suficiente de triagem. A mesma pesquisa mostrou que 31,9% dos municípios ainda utilizavam lixões.
Nesse ambiente, o aparista compra, reúne, separa, classifica, prensa e entrega as aparas conforme as especificações das fábricas. Quando a indústria eleva a exigência de qualidade, toda a cadeia precisa responder. Umidade, contaminação e mistura de materiais reduzem o aproveitamento. Melhorar o padrão exige equipamentos, treinamento, armazenagem, transporte e relações estruturadas com cooperativas, catadores e geradores.
A demanda mostra que há mercado para o papel recuperado. O próximo passo é garantir oferta com qualidade e regularidade. Isso exige coleta seletiva abrangente, logística reversa efetiva, remuneração adequada, segurança tributária e capital de giro.
O setor não enfrenta falta de utilidade para as aparas. Enfrenta o desafio de acessar o material, preservar sua qualidade e transportá-lo de forma economicamente viável. Resolver essa equação permitirá transformar os recordes de expedição em mais reciclagem, renda, empregos verdes e segurança de abastecimento para a indústria brasileira de embalagens.




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