Por executivos da Associação Nacional dos Aparistas de
Papel (Anap)
ANAP Associação Nacional dos Aparistas de Papel dezembro 10, 2025

O ano de 2025 se encerra com dificuldades para o setor dos aparistas de papel no Brasil. Enquanto as grandes fabricantes de celulose e embalagens divulgam balanços com resultados excelentes, a cadeia de fornecimento das aparas – que responde por parcela significativa da matéria-prima reciclada – sofre com uma rentabilidade baixa.

Esse quadro deve reduzir aos ganhos das empresas de reciclagem de papel. O faturamento de R$ 4,2 bilhões alcançado pelo setor em 2024, um crescimento de 29,8% em relação a 2023, não deve se repetir neste ano, diante de uma crise estrutural e de preços que levou à queda da taxa de reciclagem para 59,7%, o menor índice dos últimos anos.

A principal distorção vivida em 2025 foi a gritante assimetria entre os resultados da indústria e a realidade dos seus fornecedores. A queda nos preços das aparas iniciou-se de forma atípica entre julho e agosto e se mantém nesse final de ano, período no qual historicamente ocorre maior demanda por embalagens em função do período de festas.

O resultado foi um cenário em que um lado da balança prospera, enquanto a base da cadeia de fornecimento é novamente espremida. Há uma  crescente concentração e controle de mercado da indústria de papel, com grandes players dominando a compra de aparas e definindo preços, deixando os fornecedores pulverizados com pouco poder de barganha.

Essa pressão se somou a outros desafios, como o aumento no preço do diesel e de outras matérias-primas essenciais na produção, o que impactou diretamente os custos operacionais e reduziu ainda mais as margens.

O problema transcende os números, evidenciando uma questão social premente. A volatilidade dos preços impacta diretamente a renda de milhares de famílias que dependem da coleta, os catadores de materiais, o elo mais fraco da cadeia.

Quando a atividade deixa de ser financeiramente sustentável, catadores e microempreendedores migram para outras oportunidades. O impacto social é massivo, pois a coleta injeta cerca de R$ 350 milhões por ano diretamente na base da pirâmide. A instabilidade ameaça esse fluxo de renda, fragilizando os trabalhadores que dependem da coleta para sobreviver.

Soma-se a isso uma mudança estrutural trazida pelo e-commerce. A logística de coleta, antes concentrada em grandes pontos comerciais, agora se pulverizou para as residências. Essa nova realidade, análoga à logística de “primeira milha” (First Mile), é mais cara e complexa, mas essa complexidade não foi remunerada de volta pela cadeia.

Em meio aos grandes desafios, 2025 foi também um ano de vitórias históricas no campo regulatório, fruto de uma intensa articulação que lança as bases para um futuro mais estável.

Houve intensa mobilização a favor da PEC da Reciclagem, que já obteve 185 assinaturas favoráveis dos deputados e continuará a movimentar o setor em 2026. A PEC garante a isenção de tributos (CBS e IBS) para materiais recicláveis, o que poderá, se aprovada, corrigir uma distorção que ameaça a competitividade do setor.

Além disso, o Projeto de Lei 1.800/21, que isenta recicladores de PIS/Cofins, avançou para o Senado, e o Decreto nº 12.451, de maio, trouxe mais segurança jurídica ao mercado. A medida regulamenta as exceções à proibição de importação de resíduos sólidos no Brasil e traz um novo horizonte de segurança e proteção para os aparistas de todo o país.

Outra decisão importante favoreceu o setor de plástico: a publicação do  Decreto nº 12.688/2025, de outubro último, que definiu percentuais mínimos de material reciclado a ser utilizado pelas indústrias, uma garantia de demanda até então inexistente e antigo pleito do segmento.

O decreto do plástico abre caminho para medida similar aos recicladores de papel e papelão, promessa do governo Lula ainda não cumprida. O decreto será fundamental para criar uma demanda garantida por material reciclado e para remunerar a cadeia de coleta de forma justa, protegendo-a da volatilidade.

O balanço de 2025 deixa claro que o setor vive um momento crucial. O Brasil, que já teve taxas de reciclagem de papelão superiores às da Europa, não pode se contentar com o retrocesso.

A solução final para essa crise estrutural passa, impreterivelmente, pela criação de um marco regulatório para o papel e papelão, pleito que a Anap defende veementemente. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) existe há 15 anos, mas a responsabilidade estendida do produtor nunca foi efetivamente cobrada para o nosso setor.

A Anap conclama o governo e a indústria a se unirem aos aparistas na construção de um futuro mais estável para a reciclagem. A criação de um marco regulatório não é apenas uma questão de sustentabilidade, mas de justiça social e de inteligência econômica.

Facebook X Linkedin Messenger Com partilharCompartilhar  via e-mail Imprimir

 

ANAP Associação Nacional dos Aparistas de Papel

A coluna da ANAP é assinada por Marcelo Bellacosa, presidente da ANAP e CEO da SCRAP

Ambiental; João Paulo Sanfins, vice-presidente da ANAP e sócio-diretor do Grupo CRB (Comércio de Resíduos Bandeirantes); Gabriel Vicchiatti, conselheiro da ANAP e CEO da Vicchiatti Ambiental; e Fábio Suetugui, conselheiro da ANAP e gerente da Repapel.

Recommended Posts

No comment yet, add your voice below!


Add a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *