12/09/25 – Relatório Trimestral do Setor de Aparas de Papel

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Pandemia muda cadeia de reciclagem no Brasil e catadores ganham protagonismo, revela estudo

Segundo a Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap), o advento da Covid-19 e a mudança no comportamento do consumidor redefiniram radicalmente a logística dos resíduos

Com o ‘boom’ do e-commerce, houve um aumento significativo do volume de resíduos recicláveis gerado em casas, especialmente embalagens que antes ficavam se concentravam em pontos comerciais (Emilija Manevska/Getty Images)

 

Sofia Schuck
Repórter de ESG

Publicado em 17 de julho de 2025 às 18h00.

Última atualização em 17 de julho de 2025 às 18h10.

A pandemia da Covid-19 impactou diretamente o comportamento do consumidor brasileiro e impactou os mais diversos setores, especialmente o da reciclagem de papel e plástico.
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É o que revela um novo levantamento da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap): o modelo tradicional sofreu uma reviravolta e e precisou se adaptar a uma nova realidade marcada pela mudança na origem, volume e destino dos resíduos recicláveis.

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Antes do advento da pandemia, os produtos seguiam um fluxo bem definido: da indústria para centros de distribuição e, em seguida, para pontos comerciais. Já as embalagens secundárias e terciárias se concentravam nesses estabelecimentos, facilitando a coleta pelos recicladores.

Com o avanço das compras online e de plataformas digitais como Mercado Livre, Amazon, iFood e Rappi, os produtos passaram a ser entregues diretamente nas residências. O modelo, conhecido como “Last Mile”, representa a etapa final da logística onde a compra sai do centro de distribuição direto para o consumidor, sem passar por estabelecimentos comerciais.

A pesquisa mostra que esta descentralização trouxe consequências diretas para o setor de reciclagem. Houve um aumento significativo do volume de resíduos recicláveis gerado em casas, especialmente embalagens secundárias e terciárias que antes ficavam nos pontos comerciais.

“Isso dificultou a coleta e triagem desse material, já que os aparistas e recicladores de plásticos não conseguem operar de forma eficiente em áreas residenciais, onde o volume por ponto de coleta é baixo e disperso”, explica João Paulo Sanfins, vice-presidente da Anap.

Dados também apontam que, cerca de 30% dos insumos obtidos pelos aparistas de papel vêm do comércio, enquanto outros 30% dos ferros velhos, 25% do pós-indústria e 15% de cooperativas e catadores. Com a mudança no padrão de consumo, essa distribuição tem se alterado, com o comércio perdendo participação como fonte de material reciclável.

Catadores assumem protagonismo
Nesse novo cenário, os catadores emergiram como peça-chave da reciclagem. Na logística reversa, eles representam o “First Mile” – a etapa inicial da cadeia, através da coleta domiciliar.

“Por outro lado, esses profissionais enfrentam grandes dificuldades estruturais: falta de equipamentos, ausência de financiamento e baixa eficiência operacional nas cooperativas”, observa Sanfins.

O vice-presidente da Anap destaca que, conforme identificou a associação, “com a crescente demanda dos consumidores por pedidos nas residências, o comércio, principal fonte dos aparistas, perdeu espaço”.

Em vez de caixas de papelão estarem disponíveis no comércio, as mesmas ficam nas residências, onde ainda não há uma cultura consolidada de reciclagem.

Escassez de material reciclável
Outro destaque é a maior escassez de material reciclável no mercado. Segundo a Anap, responsável por reciclar mensalmente milhares de toneladas de materiais recolhidos das ruas pelos catadores e entregue também pelo comércio varejista, atacadistas e indústria, o insumo gerado mudou de destino e está mais concentrado nas mãos dos catadores.

A nova realidade exige adaptações por parte de toda a cadeia produtiva do lixo, desde os aparistas até as indústrias que dependem desses materiais como matéria-prima. Além disso, recomenda que o setor desenvolva novas estratégias para acessar o reciclável que agora se encontra disperso nas residências brasileiras.

Outra necessidade está relacionada a adoção de políticas públicas que fortaleçam o papel dos catadores e das cooperativas, reforçou a Anap. “É preciso investir em capacitação, equipamentos e estrutura para atender à nova demanda gerada pela digitalização do comércio brasileiro”, conclui.

Este é um trecho original publicado em Exame.com. Leia a matéria completa em https://exame.com/esg/pandemia-muda-cadeia-de-reciclagem-no-brasil-e-catadores-ganham-protagonismo-revela-estudo/?utm_source=copiaecola&utm_medium=compartilhamento

Last Mile x First Mile e mudança na logística da reciclagem de papel

Last Mile x First Mile e mudança na logística da reciclagem de papel

Por executivos da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap)

A pandemia de Covid-19 provocou uma transformação estrutural profunda em diversos setores da economia brasileira. Entre os segmentos impactados está o setor de reciclagem de papel, que viu sua cadeia de suprimentos ser reorganizada em função do crescimento exponencial do comércio eletrônico e das entregas domiciliares.

O setor de reciclagem de papel, tradicionalmente dependente de um fluxo previsível de materiais provenientes do comércio varejista e atacadista, encontra-se hoje diante de um cenário novo. A maior parte das embalagens, que antes se concentravam em pontos comerciais específicos do comércio, agora se dispersam por milhões de residências, criando desafios logísticos inéditos e oportunidades para novos modelos de negócio na economia circular.

Esta transformação representa uma mudança paradigmática na forma como pensamos a logística reversa e a gestão de resíduos recicláveis no Brasil. Os associados da ANAP têm acompanhado de perto essas mudanças e seus impactos no mercado.

Antes da pandemia, o setor de reciclagem de papel operava dentro de um modelo logístico bem estabelecido e previsível. As embalagens seguiam um fluxo linear e concentrado: produtos eram transportados da indústria para centros de distribuição, depois para atacadistas e, finalmente, para o varejo. Neste processo, as embalagens secundárias e terciárias permaneciam concentradas em pontos específicos da cadeia.

Este modelo criava pontos de concentração ideais para a coleta de materiais recicláveis. Os aparistas de papel desenvolveram suas operações em torno dessa lógica de concentração, estabelecendo rotas eficientes que incluíam supermercados, lojas de departamento e estabelecimentos atacadistas, onde grandes volumes de embalagens estavam disponíveis em locais de fácil acesso.

Nesse período, 30% dos insumos obtidos pelos aparistas provinham diretamente do comércio varejista e atacadista. Outros 30% eram originários de ferros velhos e sucateiros, 25% da indústria (resíduos pós-industriais) e apenas 15% de cooperativas de catadores e coleta domiciliar.

A chegada da pandemia acelerou drasticamente tendências que já estavam em desenvolvimento no comércio brasileiro. O isolamento social forçou milhões de consumidores a migrar para plataformas digitais, transformando o e-commerce de uma opção conveniente em uma necessidade essencial.

Plataformas como Mercado Livre, Amazon e Magazine Luiza, além de aplicativos de delivery como iFood, Rappi e Uber Eats, experimentaram crescimentos exponenciais em seus volumes de transações. O modelo de negócio do e-commerce introduziu uma mudança fundamental na logística de distribuição: o conceito de Last Mile ou última milha.

Esta mudança teve implicações profundas para o fluxo de embalagens. As embalagens secundárias e terciárias, que antes permaneciam nos pontos comerciais onde eram facilmente coletadas pelos aparistas, passaram a ser entregues junto com os produtos nas residências dos consumidores.

A descentralização do fluxo de embalagens criou uma série de desafios operacionais para os aparistas. O modelo de negócio tradicional, baseado na coleta eficiente em pontos de alta concentração, tornou-se menos viável quando o material passou a estar disperso em milhões de residências.

A coleta domiciliar apresenta desafios logísticos fundamentalmente diferentes da coleta comercial. Enquanto um supermercado pode gerar várias toneladas de papelão por semana em um único local, uma residência típica pode gerar apenas alguns quilos por mês. Para tornar a coleta domiciliar economicamente viável, seria necessário atender centenas de residências para obter o mesmo volume que um único ponto comercial fornecia anteriormente.

Essa descentralização trouxe uma consequência direta: o aumento do volume de resíduos recicláveis gerado nas residências, especialmente embalagens secundárias e terciárias. Isso dificultou a coleta e triagem desse material, já que os aparistas não conseguem operar de forma eficiente em áreas residenciais, onde o volume por ponto de coleta é baixo e disperso.

Com a redução na disponibilidade de material de fácil acesso, os aparistas viram seus custos operacionais aumentarem enquanto seus volumes de coleta diminuíam. Esta pressão na oferta de insumos resultou em uma reação nos preços pagos pelas indústrias recicladoras aos aparistas.

Neste novo cenário, emergiu com força o conceito de First Mile –  a primeira milha da logística reversa. Se o Last Mile representa a entrega final do produto ao consumidor, o First Mile representa a coleta inicial dos resíduos recicláveis nas residências. E nesta etapa, os catadores de materiais recicláveis assumiram um papel protagonista.

Os catadores, que tradicionalmente operavam como um complemento ao sistema de reciclagem, tornaram-se peças fundamentais na nova cadeia de suprimentos. Eles são os únicos agentes capazes de realizar a coleta domiciliar de forma economicamente viável, devido à sua capilaridade, conhecimento local e modelo operacional adaptado para pequenos volumes. Esta mudança representa não apenas uma alteração operacional, mas uma valorização do papel social e econômico dos catadores na economia circular brasileira.

No entanto, esta nova importância dos catadores também expôs as fragilidades estruturais que este segmento enfrenta. A maioria dos catadores opera com equipamentos inadequados, falta de financiamento para investimentos em infraestrutura e baixa eficiência operacional.

O material proveniente do comércio tradicionalmente apresenta características superiores em termos de limpeza, organização e padronização. Já o material residencial apresenta desafios de qualidade, resultando em custos adicionais de triagem e limpeza.

A escassez relativa de insumos de fácil acesso e alta qualidade provocou uma reação imediata nos preços do mercado de reciclagem de papel. As indústrias recicladoras viram-se obrigadas a ajustar os preços pagos aos aparistas para garantir o suprimento necessário.

Os aparistas que conseguiram adaptar-se rapidamente ao novo cenário, desenvolvendo parcerias com cooperativas de catadores ou investindo em coleta domiciliar, encontraram oportunidades de negócio interessantes. Aqueles que permaneceram dependentes exclusivamente do modelo tradicional enfrentaram pressões significativas em suas margens de lucro.

O cenário atual representa tanto desafios quanto oportunidades para o setor de reciclagem de papel. A transformação em curso não é temporária, mas sim uma mudança estrutural que exige adaptações permanentes de todos os agentes da cadeia.

Para os aparistas, a adaptação ao novo cenário requer investimentos em novas competências e modelos operacionais. As cooperativas de catadores precisam de apoio para desenvolver suas capacidades operacionais e gerenciais, incluindo investimentos em equipamentos, capacitação técnica e acesso a financiamento.

O poder público tem um papel fundamental na criação de infraestrutura adequada para coleta seletiva e na implementação de políticas de educação ambiental. Para as empresas de e-commerce, existe uma oportunidade de liderança na criação de sistemas de logística reversa mais eficientes.

A transformação digital do comércio brasileiro criou uma revolução na cadeia de reciclagem de papel. O que começou como uma mudança nos hábitos de consumo durante a pandemia evoluiu para uma reestruturação completa de um setor que emprega milhares de pessoas e processa milhões de toneladas de materiais anualmente.

O futuro do setor será determinado pela capacidade de todos os agentes envolvidos – aparistas, catadores, indústrias, governo e consumidores – trabalharem juntos para criar um sistema mais eficiente, sustentável e inclusivo. A transformação já começou, e os próximos anos serão decisivos para definir como este novo modelo se consolidará.

10/06/25 – Relatório Trimestral do Setor de Aparas de Papel

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O Fundo Clima do BNDES e as dificuldades de acesso aos recursos

O Fundo Clima do BNDES e as dificuldades de acesso aos recursos

Por executivos da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap)

Uma das principais dificuldades dos aparistas de papel, responsáveis por reciclar mensalmente milhares de toneladas de material recolhido das ruas pelos catadores e entregue também pelo comércio varejista, atacadistas e indústria, é obter linhas de financiamento com juros subsidiados para suas operações. Embora o setor seja reconhecido como um dos mais importantes na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e defesa do meio ambiente, há grande dificuldade de acesso dos aparistas de papel às linhas de crédito disponível. 

Um exemplo é o Fundo Clima, gerido pelo BNDES, que dispõe de R$ 11,5 bilhões para financiar desenvolvimento sustentável, um montante considerável à disposição das empresas. Embora o setor de reciclagem esteja contemplado no escopo do fundo e represente atividade fundamental para a redução de emissões de carbono, as regras de acesso ao financiamento tornam o recurso praticamente inacessível para a maioria das empresas do setor. 

O Fundo Clima estabelece um valor mínimo de R$ 20 milhões por projeto para captação de recursos, montante que supera em muito as necessidades de investimento da maioria das empresas de reciclagem. Uma prensa importada de última geração custa aproximadamente US$ 800 mil; já um caminhão para coleta custa cerca de R$ 700 mil. Já as caçambas e prensas têm um valor entre R$ 45 mil e R$ 80 mil. Ou seja, o mínimo exigido pelo banco de fomento está longe das necessidades dos recicladores de papel. 

Outro complicador é que, para acessar o crédito diretamente com o BNDES, é necessário comprovar faturamento superior a R$ 100 milhões nos últimos 12 meses, realidade muito distante até mesmo das empresas consideradas grandes em vários setores de atividade de reciclagem. 

No Brasil, uma empresa que atua no setor aparista de papel é considerada de grande porte quando processa acima de 3.000 toneladas por mês, ou 36.000 toneladas anuais, segundo informações da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (ANAP). Mesmo nesse patamar, o faturamento raramente ultrapassa R$ 50 milhões, devido aos preços dos materiais comercializados. 

No setor de reciclagem de plásticos, uma linha de reciclagem de poliolefinas com capacidade para 1.000 kg/h (cerca de 500 toneladas mensais) custa a partir de R$ 12 milhões, considerando apenas os equipamentos mais simples. Mesmo somando capital de giro e construção civil, dificilmente uma empresa desse porte alcançaria faturamento de R$ 100 milhões, embora já fosse considerada uma recicladora de médio porte no Brasil. 

A complexidade para protocolar um projeto junto ao BNDES representa outro obstáculo significativo. São exigidas licenças ambientais completas, plano detalhado de uso do investimento, balanço auditado e diversos outros documentos técnicos. Empresas de reciclagem, especialmente as menores, raramente dispõem de mão de obra qualificada para elaboração de projetos no padrão exigido pelo BNDES, o que dificulta ainda mais o acesso ao banco.  

Enquanto o setor de reciclagem enfrenta dificuldades para acessar o Fundo Clima, outros setores com maior capacidade de articulação e estrutura financeira conseguem captar esses recursos, como a própria indústria de papel e celulose, as petroquímicas e setores da mineração.  

A reciclagem em um país com 5.571 municípios exige capilaridade e pulverização de operações. Essa característica faz com que seja difícil a criação de empresas que consolidem porcentagens maiores que 2% do market share nacional, tanto no papel e papelão, quanto no plástico. 

O BNDES, historicamente direcionado à formação de “campeões nacionais”, mantém uma abordagem que não se adequa à realidade do setor de reciclagem, aonde a solução não virá de grandes corporações, mas de uma rede pulverizada de pequenos e médios empreendimentos. 

O Fundo Clima poderia ser redesenhado para atender às especificidades do setor de reciclagem, com linhas de financiamento adequadas à realidade das empresas que efetivamente fazem a economia circular funcionar no Brasil. 

Relatório Trimestral 2025 – do Setor de Aparas de Papel

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Setor de reciclagem cobra publicação de decretos para logística reversa prometidos pelo governo Lula

Nos últimos anos, os índices gerais de reaproveitamento de papel e de plástico caíram no Brasil

Por Lucas Altino 07/02/2025 03h30 · Atualizado agora

Consideradas essenciais para que o Brasil avance na agenda de reciclagem, as obrigações de reaproveitamento dos materiais mais usados em embalagens, como papel e plástico, ainda aguardam publicação do governo federal. Entidades do setor se queixam da demora do Ministério do Meio Ambiente em publicar os decretos que indicarão o quanto cada indústria precisaria coletar de seus próprios resíduos, além de estabelecer a porcentagem de material reciclado contido em uma embalagem.

  • Agenda sustentável: Projetos de lei sobre plástico, reciclagem, benefícios fiscais e certificações tramitam no Congresso
  • Reciclagem e consumo consciente: Escola leva alunos a comunidade para conscientizar sobre práticas sustentáveis

Os estudos oficiais disponíveis — subestimados segundo especialistas e empresários do setor — apontam que o país recicla apenas 4% de todos seus resíduos. Criada em 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) caminha a passos lentos, em meio à urgência de soluções ambientais com vistas à redução da poluição e da emissão de gases de efeito estufa. No ano passado, Adalberto Maluf, secretário Nacional de Meio Ambiente Urbano e Qualidade Ambiental, havia prometido a publicação de decretos ainda no primeiro semestre de 2024, mas os textos para plástico e papel ainda estão em compasso de espera. Em 2022, entrou em vigor o decreto da logística reversa do vidro, único desses materiais que conta com regras hoje. Por outro lado, especialistas explicam que o processo é demorado não só por acarretar em muitas negociações, incluindo de benefícios fiscais, mas pela necessidade de se criar outras políticas públicas em conjunto, como investimentos na infraestrutura e logística da reciclagem.

Os decretos estabelecem metas que crescem anualmente até 2032. No caso do vidro, as fabricantes de embalagens precisam, em 2025, coletar 32% do resíduo, além de usar 28% de material reciclado nas embalagens. Em 2032 esses índices precisarão ser, respectivamente, de 40% e 35%. A obrigatoriedade de taxas de “índice de conteúdo reciclado” — porcentagem da embalagem que se trata de material reciclado — é vista como importante para a criação de demanda e fomento à indústria da reciclagem. Mas um dos receios é que as dificuldades de logística em partes do país, o que inclui até ausência de cooperativas e de catadores de resíduos em muitas cidades, resultem em um grande aumento do valor do material reciclado que precisaria ser comprado pelas fábricas de embalagens. — A estratégia de índice de conteúdo reciclado tem poder muito grande de induzir mercado, criando demanda obrigatória para desenvolver a cadeia produtiva. Acho uma ótima estratégia, uma ferramenta muito importante, mas sozinha não resolve. Porque tem o risco de o material reciclado ficar muito caro, sem atender a todo mundo — resume Flavio Ribeiro, professor e consultor em economia circular do Programa das Nações Unidas para o meio ambiente e embaixador do Movimento Circular.

Segundo Ribeiro, é preciso analisar condições nas regiões das fabricantes de embalagens, como logística e disponibilidade de cooperativas de reciclagem, além de pensar em políticas tributárias. Em alguns estados do país, há poucas cooperativas. Em outros, elas existem, mas o parque reciclador pode ser distante. Contas complexas que precisam ser feitas com cuidado para que as metas sejam estabelecidas de forma viável e a cadeia não seja prejudicada, frisa o especialista. — Não acho estranha a demora, por mais que eu adoraria que saísse logo. Prefiro gastar cinco anos negociando uma regra e quando soltar, todos começarem a cumprir, do que soltar rápido uma regra que ninguém cumpre — afirma Ribeiro, acrescentando que metas tão ambiciosas invariavelmente vão “contrariar alguns interesses”, o que demanda muita negociação. — Para o mundo político, falta entender que desenvolver a cadeia da reciclagem não é só uma questão ambiental. É geração de emprego, arrecadação de impostos, desenvolvimento do país. São múltiplos benefícios. Reciclagem em queda Nos últimos anos, os índices gerais de reciclagem de papel e de plástico caíram no Brasil. O relatório do ano passado, com os dados de 2023, da Associação Nacional de Aparistas de Papel (Anap), mostra que naquele ano a taxa de reciclagem foi de 60%, enquanto em 2018 chegava a 70%. No caso do plástico, o relatório do Plano de Incentivo à Cadeia do Plástico (Picplast) mostra uma queda de 25% em 2022 para 20% em 2023 na taxa de reaproveitamento. No caso dos dois materiais, o principal tipo de consumo é a fabricação de embalagens.

A redução acontece, principalmente, por questões econômicas, explicam representantes do setor. Atualmente, é mais barato comprar matéria virgem de papel do que sua versão reciclada, explica João Paulo Sanfins, vice-presidente da Anap, pois o Brasil é o maior produtor de celulose do mundo, o que torna os preços acessíveis. No caso do plástico, as embalagens vindas da Zona Franca de Manaus são mais baratas do que as produzidas com resina reciclada, por causa dos incentivos fiscais. Por isso, representantes dessas cadeias vêm cobrando o governo federal pela publicação das regras, uma aposta no aumento da demanda e, consequentemente, da reciclagem: — Isso vai estimular muito a reciclagem no Brasil, porque vai ter mercado para vender aqui. A empresa que não usar o material reciclado, será multada. Isso tem muita origem na política pública usada internacionalmente — afirma Sanfins, que destaca a pertinência do assunto no ano de COP30 no Brasil. — A COP30 vai tratar muito do tema da poluição plástica. Sanfins diz ainda que muitos estados possuem legislações próprias sobre logística reversa, mas o decreto federal avançaria na agenda. Primeiro, pela padronização das regras; depois, pelos índices de material reciclado nas embalagens, algo mais inovador. Presidente executivo da Associação Brasileira Empresarial dos Recicladores de Plásticos (Abrerp) e presidente da Comeplax Ltda, Luiz Hartmann diz que as entidades têm tomado “esforços” pela publicação das regras:

— Isso incentivaria o uso de plásticos reciclados na fabricação de novos produtos, ajudando a fechar o ciclo de vida dos materiais e promovendo a redução do uso de recursos virgens. Essas medidas são parte de um esforço mais amplo para abordar questões ambientais relacionadas ao descarte inadequado de plásticos e promover práticas mais sustentáveis na indústria. O cenário do setor do vidro, porém, comprova que somente as obrigatoriedades não são suficientes, apesar de positivas. Juliana Schunck, diretora-executiva da Massfix Reciclagem de Vidros, que faz a coleta e o processamento dos cacos de vidro, diz que o impacto na reciclagem ainda não foi tão alto por causa do desafio econômico diante dos preços do material reciclado ante os da matéria prima, hoje mais baratos. Ainda assim, no ano passado o setor bateu as metas estabelecidas pelo decreto. Schunck explica que o preço da barrilha de vidro, que é importado, caiu de 600 dólares em 2022 para 230 dólares hoje, principalmente pelo aumento da capacidade produtiva. Com isso, a matéria prima virgem tem sido uma opção mais barata que a coleta e processamento do caco. Em janeiro, o governo federal sancionou a lei que proíbe importações de resíduos, o que promete atacar essa questão.

— O grande desafio é econômico. No nosso entendimento, tem que se somar ao decreto uma política tributária para dar benefício à indústria para usar o material reciclado — destaca Juliana Schunck, que cita as promessas de benefícios ao setor na reforma tributária, além da PEC da Reciclagem, em tramitação, que prevê isenções. — Não adianta só criar regra. Precisa de regulamentação, investir em infraestrutura, em coleta, e também em educação ambiental. Estamos avançando, mas em passos lentos. A Política Nacional de Resíduos Sólidos é de 2010, a agenda era para estar mais estruturada.

ANAP: APARISTAS DE PAPEL DEVEM REPASSAR AUMENTO DO DIESEL, QUE REPRESENTA 20% DOS CUSTOS

Por Talita Nascimento

São Paulo, 07/02/2025 – O diesel representa cerca de 20% da composição dos custos das empresas aparistas de papel, que compram
papel e papelão de catadores e, assim, recolhem anualmente mais de 4,5 milhões de toneladas de papéis para reciclagem. Na visão
da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap), a alta deve se traduzir em aumento de preços desse produto às indústrias, já
que hoje a margem Ebitda do setor está, em média, entre 3% e 5%.

O vice-presidente da Anap, João Paulo Sanfins, explica que a eficiência do setor hoje é limitada em virtude da alta taxa de juros e
da consequente dificuldade de renovação de frotas. “Estimamos que foram R$ 780 milhões que deixaram de ser investidos só em
renovação de frota pelo setor nos últimos 5 ou 7 anos”, afirmou ao Broadcast.

Para ele, os recentes aumentos no preço da celulose e a lei 15.088/2025, sancionada pelo presidente Lula em 7 de janeiro, que
passou a proibir a importação de resíduos sólidos e rejeitos, incluindo materiais recicláveis, como papel, plástico, vidro e metal são
indícios de que o repasse do preço do diesel às indústrias tem espaço para acontecer.

“A lei tem como objetivo incentivar a cadeia econômica da reciclagem, que atualmente aproveita apenas 4% do lixo gerado no
país”, diz Sanfins. Ele comenta ainda que, em 2023, último ano com dados consolidados, foram coletadas no Brasil 4,5 milhões de
toneladas de papel e papelão, o que representa uma taxa de reciclagem de 60%. “É bastante comparado com o cenário de outros
países. Mas se torna uma taxa pequena quando comparada ao que o Brasil já fez. Em 2018, a taxa chegou a quase 70%”, lembra.
Os dados são do Relatório Estatístico Anual de 2024 da instituição, que analisou os dados de 2023.

Os desafios dos aparistas de papel em 2025

Por executivos da Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap)

Recentemente, a Anap divulgou os resultados do setor de aparas de papel em 2024, um estudo realizado com a consultoria GO Associados, do economista Gesner Oliveira. Em linhas gerais, o levantamento mostra que o consumo de papel reagiu ligeiramente neste ano, porém, o setor ainda sofre com preços baixos, aumento no custo fixo e falta de incentivo fiscal. Além disso, houve forte aumento das importações, uma concorrência ruim para os aparistas locais, já que há insumo suficiente para atender o mercado interno. Este é um bom resumo do que passamos em 2024.

Apesar da recuperação na demanda em 2024, o cenário para os aparistas de papel continua negativo, já que as bases de comparação no estudo da GO foram prejudicadas pelo volume excessivamente baixo na demanda no ano passado, quando o setor passou por uma severa crise. Os preços pagos pela indústria estão deprimidos e atualmente representam apenas 50% dos valores obtidos em outubro e novembro de 2021, quando houve um pico de alta, e durante a pandemia, quando os valores também reagiram. 

Vejamos os números mais detalhadamente. Por exemplo, o consumo de papel para embalagem e para imprimir e escrever apresentou reação nos três primeiros trimestres deste ano e em comparação a 2023.  Na passagem do segundo para o terceiro trimestre deste ano, foi registrado crescimento de 1,33% – com alta de 0,55% do consumo de embalagens e de 2,59% de papel para imprimir e escrever –, conforme o estudo da GO Associados. Em relação ao ano passado, foram registradas altas de 6,1% no primeiro trimestre, 7,1% no segundo e 5,2% no terceiro trimestre de 2024, na comparação com os respectivos trimestres de 2023. 

No terceiro trimestre, o total importado de aparas foi de US$ 4,96 milhões, aumento de 222% na comparação com o trimestre anterior. Considerando o ano, o montante foi de US$ 6,22 milhões, a maior parte proveniente dos Estados Unidos (76%). 

QUAL A EXPECTATIVA PARA O PRÓXIMO ANO?

Em nossa avaliação, temos um bom horizonte em 2025, se algumas pontas do nosso setor se fecharem e houver uma preocupação maior do governo com o setor de reciclagem e economia circular, essencial na preservação do meio ambiente. 

Uma das principais expectativas do setor são os decretos do plástico e do papel – prometidos pelo governo –, que podem pressionar positivamente a demanda por resíduos recicláveis, garantindo destino correto e um melhor cenário para os aparistas de papel e outros segmentos da reciclagem. Esses decretos vão definir qual o percentual mínimo que a indústria terá de adquirir dos recicladores de papel e plástico na sua produção. Atualmente, grandes indústrias de embalagens, por exemplo, estão preferindo usar celulose e polímeros virgens na produção, em detrimento de matéria-prima reciclada. 

Outro ponto positivo é o avanço no Congresso do Projeto de Lei 1.800/21, que isenta recicladores e cooperativas de catadores do pagamento de PIS e Cofins na venda de materiais reciclados à indústria de transformação. Esse PL já foi aprovado por todas as comissões da Câmara e recentemente encaminhado pelo presidente da Casa, Arthur Lira, ao Senado. O Projeto de Lei pode solucionar a distorção criada pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que julgou inconstitucional, em 2021, benefício existente na Lei nº 11.196/2005 (Lei do Bem), que previa a isenção de PIS/Cofins nas vendas de recicláveis à indústria de transformação. 

Outra expectativa é de que na reforma tributária, ainda em análise, a reciclagem seja beneficiada com um tratamento diferenciado, diante da sua importância para o planeta. Na proposta em discussão, a reciclagem ficou fora da reforma. 

Além disso, o setor carece de linhas de financiamento para investimentos e, para isso, seria importante um apoio do BNDES. A primeira conversa com representantes do BNDES ocorreu durante a exposição “Waste Expo”, em outubro. Participaram desse encontro representantes das principais instituições de classe que atuam na reciclagem. Apresentamos dados importantes do setor, como geração de emprego, volume de resíduos coletados e destinados corretamente, capacidade produtiva e faturamento. Nosso objetivo com isso era demonstrar as dificuldades como custo de capital elevado para novos investimentos e perda de produtividade com o aumento da idade média de ativos operacionais, discutindo assim a necessidade de linhas específicas para a reciclagem.  

Estudo divulgado recentemente pela Anap, com base em dados levantados pela consultoria MaxiQuim, uma das mais respeitadas do Brasil, mostra que entre 2018 e 2023 o setor deixou de investir cerca de R$ 780 milhões na renovação da frota de caminhões por falta de recursos. A frota de veículos em 2018 tinha 8,8 anos em média e no passado 10,9 anos. 

São desafios e oportunidades que enfrentaremos como sempre fizemos.  

Que venha 2025 e que seja melhor para todos. 

Este artigo reflete as opiniões do colunista e não do Nexum Group/Portal Packaging. O veículo não se responsabiliza pelas informações publicadas acima e/ou possíveis danos em decorrência delas.